{"id":9463,"date":"2019-10-10T14:25:57","date_gmt":"2019-10-10T17:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/?p=9463"},"modified":"2020-01-10T19:13:49","modified_gmt":"2020-01-10T22:13:49","slug":"critica-do-poder-separado-em-novo-livro-andityas-matos-da-faculdade-de-direito-faz-uma-arqueologia-da-representacao-politica-e-exalta-a-democracia-radical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/?p=9463","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do poder separado: Em novo livro, Andityas Matos, da Faculdade de Direito, faz uma arqueologia da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e exalta a democracia radical"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Os curdos que lutam, em condi\u00e7\u00f5es extremamente adversas, contra o Estado Isl\u00e2mico em Rojava, no Norte-nordeste da S\u00edria, habitam uma rep\u00fablica aut\u00f4noma de fato, surgida em novembro de 2013, que tem hoje popula\u00e7\u00e3o de 4,6 milh\u00f5es de pessoas. Organizada em cant\u00f5es aut\u00f4nomos e apoiada em economias alternativas e princ\u00edpios como o feminismo e o ecologismo, Rojava se constitui como confederalismo democr\u00e1tico, tipo de administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o estatal, em que as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas pelas bases, e delegados atuam, por tempo limitado, como porta-vozes e executivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia dos curdos de Rojava \u00e9 mencionada, com algum destaque, no livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado <em class=\"redactor-inline-converted\">Representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra democracia radical: uma arqueologia (a)teol\u00f3gica do poder separado<\/em> (Fino Tra\u00e7o), de Andityas Soares de Moura Costa Matos, professor da Faculdade de Direito da UFMG. \u201cO caso do \u2018Curdist\u00e3o s\u00edrio\u2019 mostra que modelos pol\u00edticos diferentes s\u00e3o poss\u00edveis. N\u00e3o se trata da aus\u00eancia de ordem, mas da supera\u00e7\u00e3o do poder hier\u00e1rquico e separador. O poder, numa estrutura como a de Rojava, \u00e9 fluxo de ideias e de a\u00e7\u00f5es entre sujeitos que se reconhecem como iguais\u201d, comenta o autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andityas n\u00e3o est\u00e1 interessado, diga-se, em sugerir modelos de democracia radical \u2013\u00a0ele se dedica, muito antes, a uma cr\u00edtica radical do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para investigar a representa\u00e7\u00e3o, ele lan\u00e7a m\u00e3o da arqueologia, m\u00e9todo filos\u00f3fico consagrado pelo italiano Giorgio Agamben. O objetivo, afirma o professor, \u00e9 \u201cidentificar continuidades e descontinuidades dos fen\u00f4menos, para al\u00e9m de sua origem e de sua suposta linearidade hist\u00f3rica, buscando nos discursos e nas pr\u00e1ticas as marcas, ou assinaturas, que carregam e espalham\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2ce6d315abbc2c3a48b349949ed9fcf3_15702033933767_2043494663.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9464\" src=\"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2ce6d315abbc2c3a48b349949ed9fcf3_15702033933767_2043494663.jpg\" alt=\"\" width=\"712\" height=\"474\" srcset=\"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2ce6d315abbc2c3a48b349949ed9fcf3_15702033933767_2043494663.jpg 712w, https:\/\/www.direito.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2ce6d315abbc2c3a48b349949ed9fcf3_15702033933767_2043494663-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 712px) 100vw, 712px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">S\u00edntese disjuntiva<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Andityas Matos, uma assinatura da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o entre governantes e governados. \u201cTrata-se de uma s\u00edntese disjuntiva: a representa\u00e7\u00e3o une e separa, a um s\u00f3 tempo. O dito povo soberano vota para escolher um representante e, com o mesmo ato, desempodera-se\u201d, diz o professor da Faculdade de Direito. \u201cAutoridades representativas n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o de responsabilidade com o eleitor. O controle \u00e9 indireto, fr\u00e1gil.\u201d Media\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o, tradicionalmente associadas, na verdade, contrap\u00f5em-se, defende Andityas. Para ele, n\u00e3o h\u00e1 media\u00e7\u00e3o na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas simplesmente separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Andityas n\u00e3o est\u00e1 interessado, diga-se, em sugerir modelos de democracia radical \u2013\u00a0ele se dedica, muito antes, a uma cr\u00edtica radical do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Originada na Idade M\u00e9dia, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica toma emprestadas t\u00e9cnicas da teologia \u2013 destinadas a \u201cfazer vis\u00edvel o invis\u00edvel\u201d, segundo Andityas Matos \u2013 e promove \u201cilusionismo pol\u00edtico\u201d. \u201cAs sociedades, mesmo as que se julgam laicas, s\u00e3o perpassadas por elementos teol\u00f3gicos invisibilizados, dif\u00edceis de combater\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado pela Faculdade de Direito da UFMG, da gradua\u00e7\u00e3o ao doutorado, Andityas Matos fez estudos de p\u00f3s-doutorado em Filosofia do Direito na Universidade de Barcelona e cursou um segundo doutorado, agora em Filosofia, na Universidade de Coimbra. O livro resulta, sobretudo, do trabalho realizado nessa \u00faltima etapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando aborda o conceito de democracia radical, ele destaca que, para que ela se potencialize, \u00e9 preciso repensar os tr\u00eas elementos tradicionais da Teoria do Estado: povo, territ\u00f3rio e poder. Para Andityas, a ideia de povo \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o criada pelo poder, um mito pol\u00edtico. \u201cO povo deve ser pensado n\u00e3o como massa, mas como conjunto de singularidades irrepresent\u00e1veis e colaborativas\u201d, afirma, em alus\u00e3o ao conceito de multid\u00e3o, desenvolvido pelo italiano Antonio Negri e pelo norte-americano Michael Hardt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diz, no pref\u00e1cio da obra, Alexandre Franco de S\u00e1, professor da Universidade de Coimbra, o contraste entre representa\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o, no texto de Andityas Matos, \u201cprojecta-se na tentativa de pensar a possibilidade de um tempo novo em que a democracia radical possa ter lugar\u201d. Trata-se, segundo ele, de \u201cum discurso entusiasmado, seduzido pela possibilidade de retirar a media\u00e7\u00e3o do jugo da representa\u00e7\u00e3o e de, por meio dela, descobrir novas possibilidades para a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Livro: Representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra democracia radical: uma arqueologia (a)teol\u00f3gica do poder separado<br \/>\nAutor: Andityas Soares de Moura Costa Matos<br \/>\nEditora Fino Tra\u00e7o<br \/>\n435 p\u00e1ginas \/ R$ 70<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Itamar Rigueira Jr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: UFMG (https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/publicacoes\/boletim\/edicao\/2075\/critica-do-poder-separado)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os curdos que lutam, em condi\u00e7\u00f5es extremamente adversas, contra o Estado Isl\u00e2mico em Rojava, no Norte-nordeste da S\u00edria, habitam uma rep\u00fablica aut\u00f4noma de fato, surgida em novembro de 2013, que tem hoje popula\u00e7\u00e3o de 4,6 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[228],"tags":[],"class_list":["post-9463","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-2019"],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"2026-09-23 07:10:24","action":"change-status","newStatus":"draft","terms":[],"taxonomy":"category","extraData":[]},"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9463","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9463"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9463\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9463"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9463"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9463"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}